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  • Sílvio Ribas

A roda banguela da indústria

Atualizado: 30 de Jun de 2020

Protecionismo e capital público não vão garantir a sobrevida da indústria do país. É preciso plano para inserção nas cadeias globais.


Um conhecido símbolo da indústria, a roda dentada, me serve de ilustração para analisar o momento atual da economia do país, fértil em incertezas. A peça usada para transmitir energia a uma máquina me lembra dos muitos potenciais que o parque industrial brasileiro ainda carrega e, mais ainda, da série de gargalos a serem superados para que ele deslanche e volte a ter o peso de outrora na economia, perdido há décadas para ramos primários (mineração e agricultura) e terciários (comércio). Essa roda está banguela.


A ansiedade que o longo confinamento nos provoca, ainda mais com horizonte ainda nublado, nos estimula a exercitar a futurologia. Qual será então o amanhã da manufatura brasileira? Difícil prever com exatidão. O que sabemos é que há anos o setor defende uma agenda liberal de reformas muito convergente com a do atual governo, mas titubeia diante de iniciativas para uma exposição maior à competição global. Um ambiente de negócios amigável e condições fiscais favoráveis a juros civilizados no longo prazo são desejos comuns a todos. Já o apetite pelo risco, não.


As disfunções nas nossas cadeias produtivas devem-se a vários e distintos fatores, embora o debate sempre resvale para o dilema entre proteger ou não proteger os fabricantes nacionais da competição internacional. Ainda estamos, na média, com indústrias locais muito protegidas, o que redunda numa faca de dois gumes, pois encarece custos internos de produção, retarda investimentos em inovação e limita o poder de consumo da população com preço elevado e variedade menor de opções.


Em abril de 2020, a produção industrial caiu 18,8% frente a março de 2020, uma queda mais acentuada desde o início da série histórica, em 2002. É claro que estão aí os efeitos do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, acumulando em dois meses seguidos uma perda de 26,1%. Os números de fato preocupam, mas nada disso muda contingências pré-existentes. Temos de abrir a indústria ao mundo, sob a orientação de um plano que não garanta morte progressiva, mas integração.


Com coordenação política para abarcar questões como tributos, incentivos e insumos mais baratos, o setor produtivo não pode deixar de lado a busca pela ousadia, a mesma ousadia cobrada pela tão falada quarta revolução industrial. Não pode ser meramente retórica a posição de estimular o papel inovador dos industriais nacionais, tem de ser a base do seu negócio. Nunca é muito frisar que Santos Dumont não foi só inventor, mas também um grande e completo empreendedor, como bem revela o livro Mãos de Ícaro, de Nixon Diniz.


O Brasil não pode prescindir de uma indústria sólida e relevante. O país tem pressa para aumentar o fluxo do seu comércio internacional e se inserir nas cadeias produtivas globais. Melhoradas as suas condições de competitividade, a indústria não pode mais cair na armadilha do protecionismo, muito menos na aposta equivocada e controversa das tais “campeãs nacionais”. Sem barreiras e nostalgia, é preciso avançar, buscando a força da roda dentada que coloque produtos e componentes brasileiros nas prateleiras globais.

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