Buscar
  • Sílvio Ribas

A solucionática do presidente

Três vezes artilheiro do Campeonato Brasileiro, ídolo do Atlético-MG e um dos maiores goleadores do nosso futebol, Dario, o Rei Dadá Maravilha, se notabilizou também pelas frases antológicas. Uma dessas pérolas foi citada nas redes sociais do então deputado Jair Bolsonaro, após o breve e animado encontro com o ex-centroavante, em outubro de 2016. “Não me venha com a problemática, que eu tenho a solucionática”, postou o futuro presidente.

Quase quatro anos depois, o governo Bolsonaro parece guiar-se pela ideia central da solucionática, criada pelo loquaz Dadá para responder sobre o grau de dificuldade de determinado adversário. Com objetividade e humor, o chefe do Executivo visa colecionar ganhos práticos e efetivos na sua gestão, tal qual foi a maioria dos 926 gols marcados por Dadá em sua longa carreira, encerrada em 1986, aos 40 anos.

“Não existe gol feio. Feio é não fazer gol”, ensinava o goleador. Essa máxima parece dialogar com outra, do líder chinês Deng Xiaoping, para quem “não importa a cor do gato, desde que pegue o rato”. Ou seja: menos ideologia e mais resultados, menos firula e mais bola na rede. Assim, Bolsonaro não receia trocar auxiliares, toma decisões sem temer susceptibilidades e adota medidas que julga corretas, mesmo contrariando suposto senso comum.

A popularidade do presidente, que cresceu apesar de seis meses de nefasta pandemia e de duras críticas de imprensa, especialistas e entidades globais, parece se nutrir do seu jeito despachado, tal qual Dario, que não buscava gol de placa, mas sim marcar pontos e dar vitórias ao time. O gol pode ser de canela, de bico e até de bumbum, desde que a torcida fique feliz e o time leve o troféu no final. Bolsonaro também quer definir o placar do seu jogo.

Alto e desengonçado, Dadá conquistou títulos. Sincero e nada diplomático, o presidente quer vencer obstáculos, mesmo que tenha de dar passos atrás, sem, contudo, abdicar da prerrogativa de decidir. Ele se entende como o encarregado da missão e não dá bola para a problemática trazida por quem questiona desrespeito à “liturgia do cargo”. Prefere apostar na sua própria autenticidade até onde humores do mercado e teatros políticos permitem.

Em campo com pique para eventual prorrogação, o palmeirense Jair dribla e chuta (ou cabeceia) forte no rumo do meio do gol. Aceito pela massa, que quer mais resultado do que show, ele continua atacando, receoso só de não levar inesperado cartão amarelo ou vermelho. O presidente sabe que vai precisar mostrar jogo de cintura para levar adiante uma agenda por vezes impopular, como vem fazendo no papel de capitão e de técnico do time.

Sabe mais ainda que os gols sociais e econômicos precisam contagiar não apenas a plateia das cadeiras especiais, mas também a maioria de todas as arquibancadas. Com sabedoria do futebol de várzea, Bolsonaro entende que a solucionática não pode virar problemática. Por isso, prefere escanteio tático, até poder voltar a atacar.

Entre uma jogada e outra, o peladeiro Jair compreende também que não tem como abdicar por completo dos compromissos ideológicos de campanha em nome de um pragmatismo absoluto. Se mirar apenas a meta de fazer gols, pode acabar perdendo a maior parte da torcida fiel que valoriza esse aspecto.

Comentarista esportivo radicado em Belo Horizonte, o atleticano Dario esbanja simpatia e não se mete em política. Ele até teve outro fã na Presidência da República, o também militar Médici, que revelou o desejo de vê-lo na Seleção de 1970. O goleador segue inspirador, mas os tempos são outros e não cabem mais comparações fora do campo ideológico.

O Brasil de hoje é uma democracia vibrante, como gosta de repetir o ministro Paulo Guedes (Economia), e a liberdade de expressão só encontra limite em canetas monocráticas de certos membros do Supremo Tribunal Federal (STF). Após três meses no patamar de mil mortes diárias, a curva de casos da Covid no Brasil entrou, finalmente, em declínio. Bola pra frente!

165 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo