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  • Sílvio Ribas

Atenção é a riqueza do século 21

Atualizado: 12 de Ago de 2020

Distração rouba foco, que, por sua vez, faz falta para produzir conhecimento. Eis o mundo selvagem em que nos encontramos!

Nem fórmulas de medicamentos milagrosos, nem algoritmos inteligentes de redes sociais e nem genes patenteados. A maior riqueza do século 21 é algo bem prosaico: a nossa atenção ou a nossa disposição em gastar nosso cada vez mais escasso tempo com alguma coisa. Não é à toa que esse tema instiga pesquisadores há anos e está na base dos negócios digitais e das estratégias das mais valiosas marcas globais, para distrair e cooptar o foco.


Esse rico complexo empresarial voltado à exploração da atividade mental humana concentrada sobre determinados objetos atua na movimentada e crescente economia da atenção. Nela, cada segundo registrado pelo relógio que reservamos a nossos interesses, sobretudo os não-essenciais, formam um ativo a ser captado, vendido e revendido. Isso porque, ao interagirmos bovinamente em plataformas online, nos tornamos, simultaneamente, consumidor e fornecedor.


Nada é de graça nessa vida, seja real ou virtual. Tudo o que lhe parece ser acessado gratuitamente na internet está, na verdade, lastreado no valor da atenção que você dedicou a variados locais da rede. Essa atenção revela o seu próprio potencial de consumo e converte quem vê, ouve e interage em alvo para o comércio de lista cada vez mais ampla de produtos e serviços, incluindo o seu perfil de eleitor e a sua capacidade de influenciar terceiros.


Se tempo é dinheiro, a atenção é a própria essência vital. Os seus instantes fatiados, classificados e embalados são colhidos e redistribuídos na web sem os limites da territorialidade e da cronologia. Tudo sempre presente, oferecido como presente nesse universo de muita informação e, sobretudo, absoluta distração. Falta-nos força para resistir ao desperdício de horas e acabamos capturados por sondagens de todo tipo, que vão todas muito além dos cliques.


Medições de comportamento, de tempo de conexão e, particularmente, de assuntos ou de objetos de desejo que nos despertam atenção estão na mira da indústria de navegações, mais lucrativas para os navegados do que para os navegadores. Dependentes e explorados, fazemos da nossa atenção labor não-remunerado, não só ao integrar cadastros de clientes potenciais, mas também ao fornecer imagens, localizações e referências sobre quase tudo.


Sem placa de aviso e com isca colocada até por nós mesmos, tombamos feito elefante caçado na floresta, para depois ter os preciosos marfins extraídos e levados a mercados paralelos. Triste é cair como patinho numa armadilha tola, um link com elementos que levam nacos de vida afundarem em águas turvas. Antes de distopias como as dos filmes Jogador Número Um e Matrix, somos forçados a experimentar episódios de Black Mirror.


A pandemia da Covid-19 escrachou a escala bilionária do balcão da atenção, quando espera em semáforo de trânsito e na fila do elevador foi trocada por mais Netflix e e-commerce. Mas ocorre que a economia da atenção conspira contra a economia do conhecimento, outra locomotiva do mundo. Como conhecimento só se ganha com atenção, esse bem escasso deveria se expandir para gerar conhecimento, mas naufraga no oceano da informação.

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