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  • Sílvio Ribas

Atenção básica no SUS

O novo coronavírus não dá tréguas e pressiona o sistema público de saúde como nunca. Faltou organizar melhor a sua retaguarda.



Criticado em razão de falhas perante uma enorme e difusa demanda, amado pelos milhões que socorre diariamente e invejado pela maioria dos países, o Sistema Único de Saúde (SUS) sobreviveu a uma série de crises ao longo de mais de três décadas e continua sendo uma conquista estratégica do Brasil, além de um patrimônio essencial dos brasileiros.


O desafio atual do SUS – quando os governos do mundo são duramente pressionados pela maior catástrofe sanitária da História, a pandemia do novo coronavírus – é o de modernizar suas estruturas e seus procedimentos para ampliar avanços obtidos nos serviços oferecidos gratuitamente a 210 milhões de pessoas em todo o território nacional. Isso tudo sem falar do persistente combate à corrupção que descaradamente tira os recursos destinados à saúde.


De simples vacinações a cirurgias de alta complexidade e prolongadas internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), o sistema público de assistência à saúde do Brasil faz muito e pode fazer ainda melhor. Alcançar um novo patamar de eficiência na sua nobre missão de garantir cobertura universal de atendimento médico e hospitalar depende não apenas de mais recursos pagos por impostos, mas da incorporação de metodologias de gestão e tecnologia avançadas para sua administração e seus tratamentos.


Filho da redemocratização do Brasil e consagrado pela Constituição de 1988, o SUS teve como uma de suas inspirações o sistema público de saúde britânico, o National Health Service (NHS), que também deu duro no enfrentamento da Covid-19. O combativo NHS pode continuar sendo um modelo de coordenação das inúmeras competências na área e de aplicação eficaz do dinheiro do contribuinte no bem-estar coletivo.


Embora já seja um velho mantra do SUS, o enfoque prioritário na atenção básica é a prática real e inspiradora do sistema aberto do Reino Unido. Os médicos de família e os clínicos gerais ainda são pouco valorizados no Brasil, que enaltece outras formações. No NHS a história é o inverso, com os General Practitioners (GP) respondendo por um quarto dos 70 mil médicos e constituindo o eixo central do atendimento. Assim se evita que questões simples se transformem em graves e dispendiosos problemas de saúde.


Se a sua importância para o conjunto do sistema tivesses sido valorizada, com mais equipes profissionais e recursos, além de larga adoção de processos informatizados e de uma fórmula de contato permanente com o público, as unidades de pronto atendimento poderiam promover a revolução na saúde do Brasil. Tal política até vem sendo tentada, mas resultados mostram persistente cultura centrada em grandes hospitais públicos ou conveniados.


A tragédia sanitária da Covid-19 colocou mais um dedo na conhecida ferida da sobrecarga de hospitais de pronto socorro, cirurgia e UTI. Vários exames periódicos, a realização de curativos e uma série de outros procedimentos menos complexos poderiam ser feitos em pontos situados próximos da maioria da população, impedindo sobreposição de demandas ou mesmo o colapso nas principais unidades de referência das grandes metrópoles.


No NHS, o paciente não marca atendimento com médicos especializados, como cardiologista e endocrinologista, conforme o seu problema. Antes disso ele passa por um GP, que decide então se há ou não a necessidade de ser encaminhado a especialista. Remunerados conforme os atendimentos, esses médicos de atenção básica atendem mais. O SUS tem 2 milhões de profissionais, sendo meio milhão médicos de várias especialidades. 

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