Buscar
  • Sílvio Ribas

Coragem versus desancoragem

Os indicadores futuros da economia pioram, o real derrete e os investidores fogem. É hora de botar ordem na casa senão ela cairá.

Após uma forte expansão dos negócios medida em dólares, de quase 100%, do impeachment de Dilma Rousseff, em agosto de 2016, ao fim de 2019, o principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, já desvalorizou 42,5% este ano. O real, por sua vez, é uma das divisas mais depreciadas ante à moeda dos Estados Unidos, atrás só do dólar do Suriname e da cuacha de Zâmbia. Até sexta-feira (2), o dólar, a R$ 5,66, acumula alta de 41%. Socorro!?


Lamento que esses sejam os primeiros arranhões no nosso couro vindos de uma fera prestes a ganhar as ruas, a fera da aversão da iminente bagunça econômica. Para empresários e investidores o pior cenário nunca foi o desenhado pelos piores números. O mais apavorante para eles é aquilo que não se pode precificar, como se diz no jargão financeiro. Em outras palavras, para o chamado mercado o diabo não está no detalhe, mas na incerteza.


Quanto mais nublado o horizonte estiver, maior será o pânico e a fuga do dinheiro para abrigos seguros. A desconfiança em relação àquilo que não se consegue enxergar adiante faz a manada recuar e se dispersar. Lamento que sintomas de um caos assim já começam a ser percebidos no Brasil atual. Embora misturado à enorme anormalidade trazida pela pandemia da Covid-19, o momento econômico brasileiro é, sim, de extremas susceptibilidades.


Briga palaciana entre fiscalistas e fura-tetistas; desidratação da imperativa agenda do ex-Posto Ipiranga, ministro Paulo Guedes (Economia); reajustes salariais de servidores e outras vitórias corporativistas da máquina pública; tensões diplomáticas envolvendo questões ambientais e comerciais; gasto do capital político do Planalto em causas próprias... são muitos os pontos de aflição que precisam ser contidos ou eliminados para o país voltar a ter o mínimo de previsibilidade e não dar margem às muitas e danosas especulações.


O juro básico está em 2% ao ano, nível mais baixo da história e impensável há até pouco tempo, mas juros futuros pagos pelos títulos da dívida pública seguem subindo. Isso indica perda de fé na capacidade de o país honrar compromissos de maneira sustentável. Risco fiscal é algo que paira sobre nós há cinco anos pelo menos, quando Dilma não conseguia reverter efeitos deletérios de sua aposta numa “nova matriz econômica”. Teto de gastos e outras ações, como a Reforma da Previdência, evitaram, até agora, o pior.


Para evitar uma desancoragem de expectativas, termo horripilante muito usado por economistas e analistas de mercado, o momento atual exige, mais do que nunca, coragem da classe política, começando pelo presidente da República. Coragem para superar embates infrutíferos entre líderes de Poderes e costurar entendimentos em torno de reformas demasiadamente adiadas. Cada dia de hesitação e engavetamento gera perdas exponenciais.


Governo e Congresso precisam logo se acertarem em torno dos propósitos justos e necessários: enxugar a pesada estrutura de custos do Estado, dar chance real ao empreendedorismo, criar ambiente desburocratizado aos negócios e realizar sem vacilo privatizações paradas há anos. Essas foram as empolgantes promessas de Paulo Guedes, o arauto de um novo tempo que os fatos estão se encarregando de desidratar.


Se o Brasil responsável não injetar vontade política no avanço dessa agenda liberalizante, só nos restará nos esconder e esperar passar a tempestade que se arma lá fora. De janeiro a agosto, saíram do país US$ 15,2 bilhões, maior cifra da história nesse período. Da bolsa paulista foram sacados pelos investidores gringos de janeiro a 17 de setembro R$ 87,3 bilhões, quase o dobro das fugas de todo ano passado (R$ 44,5 bilhões). Socorro!


Não é, pois, por acaso que Guedes e os presidentes de Câmara e Senado voltaram a trocar elogios. O pacto pelo Brasil precisa sair e já. Caso contrário, a hemorragia da baleia cravada de arpões – metáfora para a economia brasileira usada pelo ministro da Economia – se intensificará e o maior dos mamíferos afundará no mar da intranquilidade e da incerteza.

2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo