Buscar
  • Sílvio Ribas

Diástole econômica

A pandemia foi dura, mas menos feia do que o esperado. Depois da contração, o coração da economia anseia por se abrir a todos.

Após quatro meses de angustiosa batalha global contra a Covid-19, o dilema entre pico ou platô da pandemia continua torturando corações, graças às dúvidas sobre repiques e segundas ondas. Em paralelo, avanços firmes nas dezenas de pesquisas com vacinas levam ao crescente alento às massas, aos investidores e aos empreendedores, que querem desesperadamente pela volta de todos a um terreno seguro. Estamos todos, pois, no limite.


Ocorre que esse exato ponto de vizinhança de uma abertura geral depois de tanta contrição evoca a imagem dos dois movimentos básicos, vigorosos e rítmicos do músculo cardíaco. O primeiro é o movimento de contração, conhecido como sístole, para esvaziar os ventrículos. O segundo, aquele que queremos agora é, figurativamente, o do relaxamento ou diástole, naquela fase em que os ventrículos recebem sangue. Que venha a diástole!


Os sinais desse anseio por colocar mais trabalho, produção e consumo nas nossas vidas se refletem nos agentes financeiros. O principal índice da bolsa brasileira, Ibovespa, já está rodando nos 100 mil pontos e os indicadores de Wall Street praticamente zeraram as duras perdas do ano. Após o pânico, que atingiu o auge em março, quando o novo coronavírus mudou seu status de surto para pandemia, os mercados estão em expressiva restauração.


O sangue novo da esperança a inflar os corações também ganhou o reforço da expectativa de uma iminente imunidade natural, o tal termo recorrente de imunidade de rebanho, ou de uma imunidade artificial, mediante vacinas que podem chegar em tempo recorde, no mais tardar até julho de 2021. Para muitos será tarde demais, considerando a terrível perda de entes queridos. Para a humanidade, contudo, será o restart do caminhar rumo a novo tempo.


As notícias sobre a pandemia continuam chegando, com ângulos diferentes, por vezes mais dramáticos em razão dos recordes americano e brasileiro. Mas o fato é que, do ponto de vista da racionalidade econômica e política, os cenários já espelham o real dia seguinte, cotejando perdas e buscando reações para recuperar a saúde física e mental das pessoas e a saúde financeira de países e empresas. Os mercados se prepararam para uma crise pior, que felizmente não se comprovou. Agora estão cheios de recursos e de esperança.


O pulso da economia pulsa. E, mais do que a sua recuperação, precisamos de ousadia para acelerar mais adiante. Tal qual o cardiopata que sobrevive ao infarto agudo do miocárdio e decide mudar de vida, parando de fumar e adquirindo hábitos saudáveis, a sociedade, os governos e as empresas já deveriam estar pensando em cuidar do seu coração econômico.


Vamos aproveitar a liquidez do sangue financeiro para ousar em mudanças que nos deixem mais fortes e imunes, atacando fragilidades estruturais. É o óbvio de tirar gorduras de um Estado que mais atrapalha do que ajuda. É o óbvio de capacitar mão de obra para tempos mais fluidos. É o óbvio de investir naquilo que dá retorno mais garantido hoje, a exemplo de e-commerce, novos meios de pagamento, ensino à distância, saúde, streaming... etc. 





30 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo