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  • Sílvio Ribas

Laissez-faire à brasileira

O liberalismo no Brasil é uma ventania que cruza os céus de tempos em tempos, sem deixar legado tão forte quanto o estatismo local



O liberalismo econômico no Brasil é como o gringo que visita pouquíssimas vezes a nossa terra, sempre em curtas temporadas, só para ouvir samba de roda, pegar bronze em Copacabana e se embebedar com três caipirinhas. Em 2019 o país parecia ter abraçado esse turista acidental e concedido a ele título de cidadania, para poder fixar residência se quiser.


A estreia de um governo cujo comando da economia foi dado a um ministro integralmente identificado com a cartilha liberal parecia ser a excepcional chance de o país realizar uma experiência consistente de mercados abertos. Paulo Guedes não tem pudor em reafirmar suas convicções e seu plano era tão ambicioso quanto necessário diante da erosão do Estado.


Estava escrito nas estrelas e precificado na bolsa paulista que, sim, chegou a tão sonhada oportunidade de o Brasil libertar o “espírito animal” de seu empresariado – velho slogan apregoado por economistas de peso como Delfim Neto, ex-czar da economia no período militar e oráculo de muitos. Mas, ao chegarmos à metade do mandato, apuramos frustrações.


Guedes persiste na luta, lembrando que o país precisa mirar o modelo dos Estados Unidos, onde “tudo é permitido na economia, com exceções”, sem abdicar da solidariedade com camadas menos favorecidas do povo. Com resistências e hesitações, o país sustenta ralos bilionários como a Eletrobras e não consegue deixar a iniciativa privada construir uma ligação férrea entre os Oceanos Atlântico e Pacífico. Por que perder tanto tempo e dinheiro?


Receio que, após cinco séculos de história, o gigante sul-americano que figura como segunda maior democracia ocidental e oitava maior economia do planeta, ainda esteja refém do estatismo. A mesma pobreza gerada pelo ambiente adverso à prosperidade – regulatório, burocrático e tributário – serve de justificativa à sobrevida do Leviatã ladino e teimoso.


O mesmo Brasil que foi detentor da maior taxa de crescimento econômico do século 20 é o que perdeu as décadas de 1980 e de 2010 graças a apostas estatizantes equivocadas e socialmente devastadoras. Culpa-se a herança portuguesa pelo domínio de cartórios e incrimina-se o esquerdismo acadêmico pela recorrente intervenção em atividades locais.


Mas de onde vem mesmo essa sucessão de retardos após cada incompleto impulso em favor da abertura econômica? Será a tal “incompetência da América católica”, cantada por Caetano Veloso em Podres Poderes? Será apenas falta de sorte? Será uma combinação de vícios: o das empresas por escudos contra competição, o de trabalhadores por amparo social e, por fim, o do aparelho público por injunções, receitas e aparelhos funcionais?


Acho que grilhões contra o liberalismo podem ser a mistura de todas essas causas somadas à corrupção. Mas o que sobressai é a cristalizada aversão por encarar desafios concretos e nacionais de frente. Tal qual o adulto que se nega a amadurecer, debitamos ao Estado soluções que não enxergamos em nós mesmos. Nos acostumamos a opressões que classificamos de meras contingências e pagamos caro por ineficiências aliadas de colapsos.


Assim foi com Afonso Penna, sexto presidente do Brasil, que era liberal, mas acabou protegendo a cafeicultura com preços e câmbio artificiais. Roberto Campos, o ministro liberal do planejamento no início do período militar, conseguiu com reformas modernizar a economia nacional e derrubar a inflação, mas viu o “milagre econômico” induzido por sua obra ceder ao catastrófico estatismo do governo Ernesto Geisel.


Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda e, depois, presidente, realizou a até então mais ousada agenda liberal do país, mas manteve intocado alguns bastiões estatais, como social-democrata da terceira via. O país avançou no seu governo, mas perdeu a chance de continuar na estrada reformista para alcançar um patamar de estabilidade ainda mais robusto e de Produto Interno Bruto (PIB) proporcional às suas reais potencialidades.


Laissez-faire, “deixe fazer” em francês, é o termo para expressar pensamento que defende economia sem intervenções governamentais. Lamentavelmente, sua versão na realidade brasileira é apenas espasmódica e intermitente. Até quanto o Brasil suportará isso?


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