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  • Sílvio Ribas

Mad Max ou realpolitik?

Atualizado: 29 de Jun de 2020

As pesquisas de opinião mostram que as profundas mudanças na política mundial após o levante de massas nas redes sociais ainda estão em curso e longe de consolidação


O sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu em 2013, quando gigantescas, inesperadas e inéditas manifestações tomavam as ruas do país, que os políticos precisavam se curvar logo às razões do esgotamento da democracia representativa e iniciarem reformas capazes de garantir sobrevivência ao sistema político e evitar aventuras.


FHC alertava ocupantes de posições de poder para a necessidade de compreenderem aquele “novo normal”, palavra da moda hoje, sob o risco de serem todos condenados à súbita substituição por improváveis rostos. Ignorar fatos sustentados pela revolução da comunicação digital, com domínio de ondas de indignação online, ensejaria alternativas.


Dali para cá, governos de direita foram eleitos na Europa (ocidental e oriental), nos Estados Unidos, no Brasil e até na Índia. A esse fenômeno se somam a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e vários momentos estranhos ao que dominava o cenário das duas décadas anteriores, com mais nacionalismo, menos globalismo e mais rancores irracionais.


É verdade que a pandemia da Covid-19 confrontou os excessos provocados pelas rupturas promovidas pela ação das massas ressentidas, empoderadas e conduzidas pelas redes sociais. O novíssimo normal cobra coordenação internacional e ênfase em instituições de pesquisa e de assistência social. Discurso e prática estão sendo cobrados a cotejar imposições da hora.


O Brasil parece estar sendo o melhor laboratório dessas transformações a moldar uma era. Aqui se prova que, na História e na política, o velho não sucede ao novo inteiramente de uma hora para outra. O atual governo chegou para mudar esquemas históricos de gestão da máquina de poder e desafiou a ordem iniciada em 1988, tal qual FHC vaticinou anos antes.


Mas nem a chacoalhada de Bolsonaro no status quo levou a um Mad Max político que muitos apregoavam e nem recuos sinalizados por ele agora podem ser considerados a vitória do velho modelo. Ruptura e conservação vão continuar dançando de rosto colado, mudando passos conforme a música, mas sem parar de ir na direção do baile seguinte. O povo, por sua vez, são os russos com quem fazer a combinação, pois a tudo assiste e valida.


A realpolitik entrou agora em cena e se sentou à mesa onde convidados trocavam tapas sem qualquer protocolo. Ela expôs a todos considerações práticas, em desfavor de noções ideológicas mais inflamadas. A política, nem velha nem nova, está servindo pratos conhecidos e com moral própria.


Não briga por poder quem já o tem, bem sublinhou o presidente no auge dos confrontos com o Legislativo e o Judiciário. Lula sabe disso e não endossou a tese de frente ampla contra o chefe do Executivo. Os resultados da pesquisa DataFolha divulgados hoje, 26 de junho, mostram que as condições para a “trégua definitiva” entre os Três Poderes estão dadas. As manifestações do mundo político indicam pacificação e acomodação no horizonte.


Criação de base parlamentar com cessão de cargos e pagamento de emendas parlamentares, troca do ministro da educação ideólogo por um palatável, discurso conciliador, arquivamento de processos, acenos aos presidentes de Câmara, Senado e Supremo Tribunal Federal e, para completar, popularidade intacta e total ausência de rival em 2022.


O impasse somado à crise econômica, sanitária e econômica empurraria o país para o buraco que a todos engoliria. Em paralelo, parcela do eleitorado se mostra disposta a resistir contra o que considera conspiração do sistema político contra o presidente. Melhor então soltar tinta da caneta e deixar o Brasil chegar até a margem desse rio, nas próximas eleições. E o que vale aos atores políticos é perspectiva: se Bolsonaro cair, quem sobe?

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